
OS CAMPEÕES MUNDIAIS DA ERA FIDE (1948-1993)
DOMÍNIO SOVIÉTICO (1948 - 1972)
Mikhail Botvinnik
A morte de Alekhine atirou o mundo do xadrez no caos. O sistema informal anterior não podia lidar com esta indesejada eventualidade. Apesar de Euwe poder aclamar moralmente o direito ao título, ele educadamente permitiu a Fide de participar. A FIDE já existia desde 1924, mas não tinha poder para modificações por causa da mais forte nação enxadrística, a União Soviética, que se recusava a participar. Entretanto, após a morte de Alekhine, a União Soviética se juntou a FIDE para poder participar do processo de seleção do próximo campeão. A FIDE então organizou um campeonato em 1948, parte na A Haia e parte em Moscou entre os cinco melhores enxadristas do mundo: Mikhail Botvinnik, Vasily Smyslov, Paul Keres, Samuel Reshevsky, e o próprio Max Euwe (Reuben Fine também foi convidado mas recusou o convite). Botvinnik venceu com uma larga margem (assim como também todas as sub-partidas contra todos os seus oponentes), e assim o campeonato, e a FIDE continuou a organizar a competição a partir de então.
No lugar do sistema informal anterior, um novo sistema de torneios qualificatórios foi preparado. Os mais fortes enxadristas participariam de Torneios Interzonais, do qual participavam também os enxadristas qualificados em Torneios Zonais. Os principais finalistas destes Torneios Interzonais participariam do Torneio de Candidatos que seria inicialmente um torneio, mas passou a ser um sistema eliminatório de partidas. O vencedor do Torneio dos Candidatos iria então disputar uma série de partidas com o atual campeão (que não participava deste processo de qualificação) pelo título mundial. Se o campeão fosse derrotado, ele teria o direito de se juntar ao seu sucessor e ao futuro desafiante na próxima disputa do título (em 1957, esta regra foi mudada para permitir que o campeão derrotado disputasse uma revanche um ano após sua derrota). Este sistema funcionava num ciclo de três anos.
O vencedor do Campeonato de 1948, Mikhail Botvinnik, acabaria sendo uma presença constante nas disputas de títulos por mais de dez anos. Sua marcada longevidade no topo é explicada pelo fato dele ser um trabalhador incansável. Dizia-se que ele aperfeiçoou o jogo com uma ciência, não um esporte, através de sua ênfase na técnica sobre a tática. Esta longevidade é ainda mais impressionante considerando o fato que ele teve seu auge durante a Segunda Guerra Mundial, durante o qual competições de xadrez foram suspensas, e ele foi ainda o primeiro campeão forçado a jogar com todos os seus desafiantes. Talvez o mais memorável é que ele não era um enxadrista profissional, mas um engenheiro decorador de negócios.
Botvinnik defendeu com sucesso seu título duas vezes nos primeiros seis anos, segurando David Bronstein em 1951 e Vasily Smyslov em 1954. Ambas as disputas terminaram empatadas em 12-12 mas Botvinnik manteve o título por ser o atual campeão. Entretanto Smyslov, venceu o título em 1957 por um placar de 12.5 – 9.5, apenas para perdê-lo no ano seguinte novamente para pelo placar de 12.5 – 10.5. Na época, Smyslov teve o dúbio prazer de ser ter o menor reinado de campeão mundial, mas esta 'honra' brevemente trocou de mãos, para o 'Mágico de Riga', Mikhail Tal.
A ousadia de Tal e seu estilo de sacrifícios o levou ao sucesso em 1960, sobrepujando Botvinnik pelo placar de 12.5 – 8.5. Mas mais uma vez, Botvinnik não foi contido, e recuperou seu título no ano seguinte numa revanche, pelo placar de 13 – 8, depois o qual Tal ficou doente. Botvinnik certa vez disse: "Se Tal aprendesse a se programar adequadamente, ele teria sido impossível para jogar." Infelizmente, ele não foi, e muitos acreditavam que tal nunca seria capaz de viver todo o seu potencial. Ele permanece até hoje como o campeão de menor reinado.
Botvinnik viria a jogar apenas mais uma partida de campeonato mundial, contra o armeno Tigran Petrosian, perdendo de 12.5 – 9.5. Não houve revanche, porque a FIDE havia abolido a esta regra. Botvinnik então se retirou dos campeonatos de xadrez (e se retirou de jogar ativamente também em 1970) se ocupando então com xadrez por computador e a criação de sua famosa escola de xadrez. Petrosian defendeu com sucesso seu título em 1966 contra Boris Spassky, vencendo por uma pequena margem (12.5 – 11.5) em Moscou. Três anos depois entretanto, mais uma vez em Moscou, ele perdeu de 12.5 – 10.5 para o mesmo desafiante.
FISCHER (1972 - 1975)
O campeonato seguinte em 1972, que ocorreu em Reykjavík (Islândia) in 1972, viu o primeiro finalista não-Soviético desde a Segunda Guerra Mundial (e o primeiro na era FIDE), o jovem Estadunidense, Bobby Fischer. Tendo derrotado seus oponentes candidatos Mark Taimanov, Bent Larsen, e Tigran Petrosian (os dois primeiros por inacreditáveis 6–0), Fischer facilmente se qualificou a desafiar Spassky. A então chamada Partida URRS contra o resto do mundo, possivelmente uma das mais famosas do xadrez, teve um início tremendo: tendo perdido o primeiro jogo, Fischer abandonou o segundo depois de não conseguir inverter a situação, reclamando das condições de jogo. Havia uma preocupação se ele desistiria de toda a disputa em vez de jogar, mas ele pontualmente veio para o terceiro jogo e venceu brilhantemente. Spassky venceu apenas mais um jogo no resto da série e foi eventualmente esmagado por Fischer por um placar de 12.5 – 8.5. O domínio de Fischer desenhou muitos paralelos com outro famoso campeão de xadrez estadunidense, Paul Morphy. Infelizmente, esta similaridade se tornou muito próxima três anos mais tarde.
Uma linha de campeões FIDE inquebrável tinha assim sido estabelecida de 1948 A 1972, com cada campeão ganhando seu título após derrotar o ex-campeão. Isto teve seu fim em 1975, quando o então campeão Fischer se recusou a defender seu título contra Anatoly Karpov quando as demandas de Fischer não foram atendidas. Fischer resignou ao seu título FIDE por escrito, mas privadamente manteve que ele ainda era o campeão mundial. Ele entrou em reclusão e não jogou xadrez em público novamente até 1992, quando ofereceu a Spassky uma revanche, novamente pelo título mundial. O público de xadrez em geral não toma esta alegação de campeonato a sério, desde que ambos passaram de sua época – sendo sombras de seus próprios passados, embora a partida tenha sido grandemente apreciada e tenha atraído boa cobertura da mídia.
KARPOV E KASPAROV (1975-1993)
Anatoly Karpov
Karpov dominou a década de 1970 e o início dos anos 80, com uma incrível série de sucesso em torneios. Ele convincentemente demonstrou que era o mais forte enxadrista do mundo defendendo seu título duas vezes contra o ex-Soviético Viktor Korchnoi, primeiro na Cidade de Baguio em 1978 e em Merano em 1981. Seu estilo “boa constrictor" frustrava os oponentes, algumas vezes os levando a revoltar-se e errar. Isto o permitiu a trazer toda a força de sua técnica seca aprendida na escola Botvinnik contra eles, levando seu caminho a vitória.
Ele eventualmente perdeu seu título para um esquentado, agressivo, tático que equilibrava convincentemente sobre o tabuleiro: Garry Kasparov. Os dois lutaram cinco inacreditáveis finais pelo campeonato mundial de 1984 (terminado com controvérsias sem nenhum resultado com Karpov liderando por +5 -3 =40), 1985 (em que Kasparov venceu o título por 13-11), 1986 (vencido por pouco por Kasparov, 12.5–11.5), 1987 (empate de 12–12, Kasparov mantendo o título), e 1990 (novamente vencida por pouco por Kasparov, 12.5–11.5).